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por
Frei Betto
O maior mérito do governo
Lula é contribuir efetivamente para reduzir a desigualdade social no
Brasil. Em 2002, nosso país ocupava o vergonhoso 3º lugar em
desigualdade social no mundo. Hoje, somos o 10º; se não é motivo de
orgulho, já representa um avanço nesta nação tão populosa.
O pico da desigualdade ocorreu na segunda metade dos anos 80,
efeito da política de concentração de renda implementada pela
ditadura militar - o herético “milagre brasileiro”, que levou o
general Médici a admitir: “a economia vai bem, mas o povo vai mal”.
Desde 2001 há progressiva redução no fosso da desigualdade. A
renda dos mais pobres tem crescido cerca de 4,5% ao ano. No governo Lula
isso se acentuou graças às políticas sociais, em especial o Bolsa Família,
que hoje distribui renda a mais de 30 milhões de pessoas pobres e,
segundo o Ipea, há maior número de pessoas da família inseridas no
mercado de trabalho.
Pesquisa do Ipea aponta que, em 2001, uma família de quatro
pessoas dispunha de uma renda média mensal (em valores de hoje) de R$
209. Em 2004 passou a R$ 239, um aumento de 14%.
Como fatores indiretos dessa melhora do quadro social temos
a Constituição de 1988, que ampliou os direitos do trabalhador; o
aperfeiçoamento de nossa democracia, que possibilitou mais controle das
instituições e, em especial, a fiscalização do poder público
(embora isso ainda esteja longe do razoável); e o maior
profissionalismo dos funcionários do governo. Um dos desafios da
reforma política, pela qual a nação tanto anseia, será a drástica
diminuição dos cargos de confiança, de modo a vetar o uso da máquina
pública como moeda eleitoral e compensação de alianças partidárias.
A questão social, tão efêmera nos governos anteriores ao de
Lula e, quase sempre, restrita à dedicação da primeira-dama,
tornou-se central a partir de 2003. Somada à expansão da educação
fundamental, iniciada no governo FHC, influi na mudança do perfil da
desigualdade no país.
Se o governo Lula merecer um segundo mandato, como anseio, terá
como desafios, para melhorar esse perfil, reformar a política de juros,
que hoje asfixia os gastos públicos e impede o desenvolvimento sustentável;
massificar a educação de qualidade (a aprovação do Fundeb é um
passo importante nesse sentido); e incluir na reforma tributária a
tributação progressiva, de modo a obrigar os mais ricos a pagarem mais
impostos.
Hoje a carga tributária é regressiva. Quem ganha até dois salários
mínimos por mês arca com 48,8% do total, enquanto os privilegiados que
recebem mais de 30 salários mínimos pagam apenas 26,3%. Eis aqui uma
das principais causas da violência urbana. Não é a pobreza que
revolta, é a desigualdade, essa odiosa convivência entre a miséria e
a ostentação reforçada pela cultura do consumismo. Basta dizer que
70% dos recursos canalizados para atenuar a dívida pública (o famoso
superávit primário) são amealhados por apenas 20 mil famílias. Ou
seja, o Bolsa Marajás abocanha três vezes mais recursos que o Bolsa
Família. Enquanto a Saúde dispõe de um orçamento anual de R$ 36 bilhões
e a Educação de R$ 16 bilhões, os credores da dívida pública
embolsam cerca de R$ 150 bilhões por ano.
Ainda não há motivos para comemoração. São raros os
brasileiros dotados de liberdade substantiva, ou seja, em condições de
vislumbrar alternativas para o seu projeto de vida, poder escolher uma
delas e realizá-la, inclusive alterando-a parcial ou totalmente. A
maioria está privada do direito à vocação e se submete à
oportunidade de emprego, condenada a um trabalho que raramente se traduz
em satisfação subjetiva, espiritual.
Um dos efeitos da desigualdade social é o desprezo pelos valores
éticos. Na ânsia de livrar-se da pobreza e ingressar no mundo do
consumo sofisticado (que os anúncios de TV propagandeiam como único
reduto de dignidade e felicidade), ampliam-se a sonegação, a corrupção,
o nepotismo e o corporativismo.
As reformas política e tributária são imprescindíveis para
reduzir ainda mais a desigualdade social, mas não suficientes. O passo
significativo será dado no dia em que o Brasil comemorar o êxito de
sua reforma agrária, pois só o campo é capaz de absorver a mão-de-obra
hoje condenada ao desemprego e estancar o êxodo rural que provoca o
inchaço de nossas cidades, visivelmente marcadas pelo subemprego e pela
crescente favelização.
Frei Betto é
escritor, autor de “O gosto de uva”
(Garamond), entre outros livros.
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