A farra das Privatizações

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

Agora, passado o calor do debate eleitoral, e após a fantástica vitória do Presidente Lula, fica mais fácil retornar ao tema das privatizações. Por sinal, foi só após pautar este assunto na agenda política eleitoral que o PT conseguiu virar o jogo, sair do paredão em que estava e forçar o PSDB a ficar na defensiva. Saiu da condição de saco de pancada para a de pugilista.
O candidato do PSDB/PFL, Geraldo Alckmin, por mais que tentasse explicar que era contra as privatizações, não conseguia convencer. Não passava segurança ao tentar contrariar a sua lógica privatista e do seu partido, inclusive porque no seu governo em São Paulo muito se privatizou, aos moldes do governo FHC.

A estratégia de debater as privatizações se mostrou tão acertada que os defensores da privataria se esforçaram em mostrar, por exemplo, o sucesso da Vale do Rio Doce após passar às mãos da iniciativa privada. “Uma maravilha, só conseguida pelo espírito empreendedor dos novos donos da empresa”. Claro que isso é uma mentira deslavada.
Consultando o livro “Brasil Privatizado”, do jornalista Aloysio Biondi, pode-se constatar que a Vale do Rio Doce foi doada à iniciativa privada e, após a entrega, a lógica de atuação da empresa mudou. O lucro passou a ser sua razão principal. Assim ficou fácil. Pegou-se uma empresa que era dona de outras 30 empresas das áreas de mineração, navegação, portos, celulose, madeira e redirecionou-a aos seus novos objetivos estratégicos, ou seja, lucro, lucro, lucro.

Quem pensa que a Vale passou a investir mais em serviços ferroviários, portuários, de navegação marítima, enganou-se. Ela cortou seus investimentos em 25%, segundo nos conta Aloysio Biondi. Desta forma, os novos donos embolsaram 70% dos lucros, logo no primeiro ano pós-privatização.

Outra coisa que não foi dita é que a Vale pagou menos de 0,5% de Imposto de Renda, graças a uma brecha na lei que garantia a devolução, sob a forma de abatimento no Imposto de Renda, entre a diferença do ágio e o valor pedido pelo governo na hora da venda da empresa. Uma beleza! Assim fica fácil alardear os lucros da Vale nas mãos dos novos donos. Só não dizem, os defensores das privatizações, que o dinheiro usado, inclusive do BNDES, para financiar as privatizações, era do povo brasileiro.
Também não dizem que a empresa era estratégica e que dava muito lucro ao país.

Portanto, FHC e sua turma cometeram crime de lesa-pátria.

Matéria publicada no jornal A Folha de São Paulo, em novembro de 1999, pelo jornalista Alex Ribeiro, nos mostra que o governo do estado do Rio de Janeiro, à época, gastou R$ 7 bilhões para “preparar” o Banerj para a privatização. O “comprador” foi o Itaú, que pagou a insignificante quantia de R$ 310 milhões.

Segundo Alex Ribeiro, as privatizações comandadas pelo governo FHC são criminosas: “as empresas e os bancos estatais não estão apenas sendo literalmente doados aos grupos privilegiados, brasileiros ou multinacionais. O assalto vai mais longe: na prática, estamos até pagando, bilhões de reais, para que os compradores façam o favor de embolsar o patrimônio coletivo e lucros bilionários”.

Sinceramente, acho que até os cidadãos que vêem com bons olhos o processo de privatização hão de convir que o que se fez no Brasil na era FHC foi, no mínimo, um crime imperdoável contra o patrimônio público nacional.

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br



Publicado no jornal Serrano On-line em nov/2006