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por
Frei Betto
Os pobres reconduziram
Lula à Presidência da República. Segundo o Ibope, apenas 11% de
seus eleitores ganham mais de cinco salários mínimos por mês
(R$ 1.750). Dos que recebem até dois salários mínimos (R$ 700),
56% votaram nele. Desse contingente, em 1989 apenas 37% deram seu
voto ao candidato do PT.
A pesquisa se confirma quando encarada
pelo nível de escolaridade. Neste ano, apenas 6% dos eleitores de
Lula têm curso superior. Em 1989 eles somavam 11%, o mesmo índice
dos que haviam atingido a 4a série do ensino fundamental. Agora,
a turma que completou o primeiro ciclo soma 35%.
Vários fatores explicam o
prestígio do governo Lula junto aos setores mais pobres da população.
Houve aumento real do salário mínimo; cerca de 4 milhões de empregos
formais foram criados para quem ganha 1 ou 2 salários mínimos; a
inflação está sob controle; o preço dos gêneros de primeira
necessidade mantém-se estável ou sofreu redução; o Bolsa Família
distribui renda mínima para 11,1 milhões de famílias,
beneficiando mais de 40 milhões de pessoas.
Tudo isso é pouco, pois não
erradica as causas da miséria nem modifica as estruturas que situam o
Brasil entre as dez nações mais desiguais. Porém, esse pouco é
muito para quem nunca teve nada. Os governos anteriores não
tinham políticas sociais. No máximo, ações emergenciais diante
de enchentes ou estiagem prolongada, e arremedos, como a
Comunidade Solidária, que atingiam um universo restrito de famílias.
Embora o Bolsa Família não
esteja isento de corrupção, tanto no uso dos recursos quanto a beneficiários
imerecidos, o fato é que eliminou os intermediários entre o cofre
da República e o bolso da família cadastrada, através do cartão
magnético. Essa distribuição de renda mínima representa uma
injeção mensal de dinheiro nas regiões mais pobres, reativando
o comércio local. O programa Luz para Todos de fato estendeu a
energia aos rincões mais distantes e a agricultura familiar,
responsável por 7 de cada 10 empregos no campo, tira proveito das
linhas de crédito do Pronaf.
O que mais querem os pobres é
dignidade. Isso significa emprego, moradia, escola, saúde. Sentir
que, de alguma forma, o governo se preocupa com eles. A questão
agora é como o governo agirá com aqueles que o elegeram: abrirá
porta de saída para o Bolsa Família, de modo que os beneficiários
produzam a própria renda, ou dará continuidade à dependência
deles em relação aos cofres públicos?
A porta de saída reside em
políticas que ampliem a oferta de empregos e, sobretudo, na reforma
agrária. Não há indícios de que o governo Lula pretenda
alterar a estrutura fundiária do país, ao contrário das teses
defendidas historicamente pelo PT. No máximo, o governo continuará
funcionando como um pronto-socorro de emergência frente aos
conflitos fundiários: assentar acampados, desapropriar áreas sem
interesse para o latifúndio etc.
O mais provável é que o governo dê
prosseguimento à receita do Banco Mundial: tostões para os
pobres e bilhões para os ricos. Assim, aplaca-se a ira nas duas
pontas da estrutura social. Aos pobres, políticas sociais que
exigem, do orçamento do Executivo, cerca de R$ 10 bilhões por
ano. Aos ricos, detentores dos títulos da dívida pública, o Bolsa
Fartura que lhes transfere anualmente aproximadamente R$ 100 bilhões.
Tudo parece simples se no porão
das contas públicas não houvesse uma bomba prestes a explodir:
os limites da relação dívida/PIB. Quanto mais – em valor e
tempo – o governo pode transferir à cornucópia da elite? A
resposta não parece animadora vista do buraco em que anda o pífio
crescimento do país. Se o PIB crescer, pode-se suportar relativo crescimento
da dívida pública. Mas como desatar o nó do crescimento sem cortar
gastos públicos e reduzir os juros?
O governo quer manter acesa a
vela destinada aos pobres e a fogueira que aquece a renda dos ricos. Até
agora, a saída que encontrou para agradar uns e outros é
aumentar impostos, hoje em 37,37% do PIB, e apertar ainda mais o
cinto do ajuste fiscal. Assim, poderá manter a Bolsa Família e a
Bolsa Fartura, e engordar sua poupança no exterior, hoje
calculada em US$ 70 bilhões, um recorde comparado às administrações
anteriores.
Talvez a opção do novo
governo Lula seja mesmo a de manter o Brasil no banho-maria das políticas
neoliberais, sem tocar nas estruturas que impedem a redução da desigualdade
social e favorecem a multiplicação geométrica da fortuna dos 20%
mais ricos da população. Se assim for, nem é preciso falar em
“pacto social” ou “concertação”. Basta o PT entender-se
com o PSDB e oficializar, como nos EUA, a alternância no poder,
deixando o PMDB entregue à sua sina de “hay gobierno, soy
favorable”.
Os descontentes que se
organizem e mobilizem.
Frei Betto é
escritor, autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo
e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros
livros.
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