QUE NÃO MORRA NUNCA A ESPERANÇA 

 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

Para mim, a esperança não é só uma virtude, é um sentimento carregado de significados que vão muito além dos que estão definidos nos dicionários.

Quem tem esperança, espera, pois, crê. Portanto, ter esperança é também um ato de fé. Ela é uma palavra desprendida, solidária, amiga. Não quer só para si. Espera também pelo próximo, como se velasse os sonhos alheios. É uma palavra com sentimento coletivo. Talvez, por isso, seja tão atacada, como tem sido nestes últimos anos. Sinto que querem, de alguma maneira, nos fazer crer que a esperança já não existe. Que ela escafedeu-se para muito além do arco-íris, do céu azul e das estrelas...

Nestes tempos que nos pregam a desesperança coletiva, não serei mais um entre os desesperançados. Nego-me a perdê-la e me apego a ela como um náufrago que se agarra a uma bóia.

O que direi para os meus filhos, que não tenham esperança em dias melhores? Que não vale à pena viver? Que o mundo é assim mesmo, frio, egoísta e injusto e que não há nada de bom no ser humano? Não! Nego-me a perder a esperança. Ainda que seja apenas um tênue fio, vou me segurando a ele... Insistentemente...

Outro dia, sofri ao ler a notícia de que uma senhora de 79 anos, doente terminal, com câncer no ovário e no intestino, estava presa, acusada de trafico de drogas. Portava, segundo dizem, ao ser presa junto com o filho, alguns gramas de uma droga qualquer. Pelo seu crime, foi condenada a quatro anos de prisão.

Iolanda Figueiral de Jesus pesava 52 quilos ao ser presa e 33 ao ser libertada quatro meses depois, por decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, com o apoio da Associação de Magistrados do Rio de Janeiro e de pessoas ligadas à Pastoral Carcerária. O juiz que a condenou negou os pedidos de habeas-corpus.

Analfabeta, bóia-fria, catadora de papelão, já havia sido condenada ao nascer. Viveu a vida que pôde e recebeu o direito de responder em liberdade pelo seu crime agora, aos 79 anos e mais uns poucos dias de vida.

Eu nem sei se Iolanda Figueiral ainda está viva e ela nem saberá que falo dela neste instante. E que penso nela e em quantas outras Iolandas sofrem as mesmas dores. Ao pensar nela, penso na esperança. Na minha esperança e na esperança dela, que pode ser diferente da minha, mas isso não importa...

Acho que a mão da justiça pode até ser implacável, mas deve ser também humana, sábia e ponderada. Não pode ferir a alma. Não apode matar a esperança.

 

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br

 

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Publicado no jornal A V
oz da Serra