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por
Frei Betto
Retorno ao Brasil após
maratona de palestras na Itália: Aosta, Modena, Bolzano, Pistoia,
Morbegno e Misano. Encontrei uma Itália dividida. Embora o voto não
seja obrigatório, mais de 80% dos eleitores posicionaram-se em torno
dos nomes de Berlusconi e Prodi. Venceu Prodi, candidato de
centro-esquerda, pela exígua vantagem de 25 mil votos.
A tensão eleitoral reflete a social. A Europa Ocidental chegou
ao topo de seu bem-estar. O futuro se lhe delineia como um plano
inclinado, já que não cria progresso científico e tecnológico.
Usufrui dos avanços protagonizados pelos EUA. Em 2005 a Itália teve
crescimento zero.
Um operário da Fiat de Betim (MG) ganha por mês o que se paga
por dois dias de trabalho a um operário da Fiat de Turim. Em busca de
maior margem de lucro, as indústrias se deslocam para países
fornecedores de mão-de-obra barata. Resta ao europeu o capital
especulativo engordado por essa estranha alquimia econômica que
transforma o Terceiro Mundo em exportador de capital, amealhado por um
sistema financeiro anabolizado por contas secretas que acobertam
fortunas escusas e criminosas.
Hoje, o europeu ocidental desfruta de uma qualidade de vida
jamais conhecida pelas gerações anteriores. Mas não o faz
impunemente. Embora haja fila para adquirir um carro Ferrari no valor de
600 mil Euros (cerca de R$ 1,5 milhão), não há rede de proteção
social que suporte o peso de tantos desempregados, devido aos avanços
tecnológicos, e tantos aposentados, graças à dilatação da média de
expectativa de vida.
Esse direito é extensivo aos imigrantes, inclusive aos que
chegaram há pouco, fugidos da miséria, sem que tenham contribuído
durante anos ara o sistema previdenciário. Eis que se atiça a
xenofobia. Na Europa Ocidental, com exceção dos turistas, os de fora não
são
bem-vindos. Sobretudo aqueles nos quais o crescente preconceito
identifica potenciais terroristas.
Na Itália, Berlusconi simboliza o dinheiro farto, a ostentação
do europeu que, abastecido de rendas, se dá a um requinte outrora só
desfrutado pelos nobres. Na Enoteca Pinchiorri, o melhor restaurante de
Florença, o prato mais barato custa o equivalente a R$ 460. E há filas
para a reserva.
Prodi significa que o sonho acabou. E se não quiser resvalar
para o plano inclinado, o italiano deve começar a preocupar-se com o
futuro no qual o capital produtivo tenha precedência sobre o
especulativo. Há que tomar distância dos EUA; aproximar-se de
Zapatero, chefe do governo espanhol; trazer de volta as tropas italianas
no Iraque; encarar de frente o desafio ecológico; promover reformas nas
instituições.
Constatei grande interesse pelos ventos democráticos que sopram
na América Latina. Os eleitores de Prodi torcem pela reeleição de
Lula, conscientes do papel estratégico do Brasil no Continente.
O ex-governador do Rio faz greve de fome. Fiz duas quando preso
político, uma por seis dias e a segunda por 36. Estávamos numa
ditadura, na qual oposicionistas eram tratados como terroristas, e havia
mortos e desaparecidos. Hoje as instituições democráticas funcionam
relativamente bem. Tanto que Garotinho, que já foi PT, PDT e agora é
PMDB, se elegeu governador e fez eleger a mulher para o mesmo cargo. A
atitude de Garotinho é ridícula. Quem faz greve de fome fecha a boca.
Mas a dele precisa se abrir para explicar as denúncias em torno de sua
pré-candidatura à presidência.
Evo Morales fez o que o Brasil devia ter feito ao criar a
Petrobras, nos anos 50: nacionalizou a produção e a comercialização
do gás boliviano. É um direito de soberania. O Brasil deixou a
comercialização do petróleo em mãos de empresas estrangeiras. Em
cada esquina, em posto de origem estadunidense.
A Bolívia tem 70% de sua população vivendo com uma renda per
capita/dia inferior a dois dólares. E Morales apenas cumpre sua
promessa de campanha. Não fez demagogia, como se o seu nacionalismo
fosse apenas para efeito de marketing eleitoral. O governo boliviano não
estatizou as empresas estrangeiras que operam no país. Exige, porém,
controle acionário. O Brasil compra, por dia, cerca de 25 milhões de
metros cúbicos de gás natural da Bolívia e paga por ano
apenas US$ 800 milhões. Quem acha que Morales exagera, dê uma olhada
nas leis dos EUA, da Inglaterra e da França, que defendem a exploração
e comercialização dos recursos naturais daqueles países. E ninguém
ousa acusar o trio de desrespeitar ?direitos internacionais?. Antes de
respeitar as ?leis do mercado?, um governo tem a obrigação de
respeitar e proteger os direitos da nação. Chega de neocolonialismo!
O PT decidiu, em seu encontro nacional, não apurar as
responsabilidades de seus parlamentares acusados de receber ?dinheiro não-contabilizado??
Ou melhor, promete que o fará após as eleições, mas sem tratar de
casos individuais. O mesmo partido que expulsou companheiros(as) por razões
políticas, agora se recusa a sequer investigar os que são suspeitos de
transgredir a lei e a ética. E o faz em nome da prioridade de reeleger
Lula. Não percebe que a candidatura Lula se fortaleceria com a coerência
do PT a seus princípios históricos, norteados pela estrela da ética e
da defesa dos direitos dos mais pobres. Jogar o lixo para debaixo do
tapete é deixar pairar sobre os acusados a aura da suspeita. Com o
risco de não reelegê-los em outubro. E abrir um precedente grave: o
mesmo PT que expulsa por divergência política, acoberta a transgressão
ética.
Lula, que demitiu ministros de primeiro escalão diante de suspeitas éticas,
merecia no mínimo igual atitude do partido que criou.
A Varig é a cara do Brasil. Ou melhor, as asas. Seus gestores não
deveriam ter deixado uma empresa de tamanha importância estratégica
atolar-se numa dívida superior a R$ 6 bilhões. Milhares de empregos
diretos e indiretos estão em jogo. Tomara que se encontre uma saída
que impeça a companhia aérea de ter o mesmo destino da Vasp e da
Transbrasil.
*Frei
Betto é escritor,
autor de /Treze contos diabólicos e um angélico/(Planeta),
entre outros livros.
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