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por
Frei Betto
A 29 de outubro
escolheremos quem governará o Brasil nos próximos 4 anos: Lula ou
Alckmin. Os dois são cristãos. Os dois nunca deram mostras de tendência
fundamentalista, a de querer submeter a política à autoridade de uma
Igreja ou religião.
A política é laica, ou seja, neutra em matéria de religião. Ela
serve ao conjunto da população, sem levar em conta as convicções
religiosas do cidadão ou cidadã. A todos o governo tem a obrigação
de servir, assegurando-lhes direitos, proteção e o mínimo de bens
para que possam viver com dignidade.
Se nenhuma religião tem o direito de tutelar a política, isso não
significa que a política deva se confinar no pragmatismo do jogo de
poder. A política se apóia em valores éticos. E nós, cristãos,
temos como fonte de valores a Palavra de Jesus. É à luz do Evangelho
que avaliamos todas as esferas da atividade humana, inclusive a política
– que é a mais importante delas, pois influi em todas as outras.
Para Jesus, o dom maior de Deus é a vida. Está mais próxima do
Evangelho a política que favorece condições dignas de vida à maioria
da população. É neste ponto que as políticas do PSDB e do PT ganham
contornos diferentes. Os dois partidos tiveram desvios éticos? Sem dúvida.
Como ironiza Jesus, atire a primeira pedra quem não tem pecado… Errar
é humano. Persistir no erro é abominável. Se um membro da família
erra, não se pode condenar por isso toda a família. O grave é quando
a família toda abraça o caminho do erro.
Este foi o caso do PSDB, partido de Alckmin, nos 8 anos em que FHC
(Fernando Henrique Cardoso) governou o Brasil (1994-2002). Empresas públicas
foram privatizadas. Grandes empresas brasileiras – Vale do Rio Doce,
Embratel, Telebrás, Usiminas etc - patrimônios do povo brasileiro,
cujos lucros engordavam os cofres do Estado, foram vendidas a preço de
banana, e os lucros passaram a ser embolsados por corporações
privadas, muitas delas estrangeiras.
Lula não privatizou o patrimônio público. Eleger Alckmin pode ser o
primeiro passo para a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil,
da Caixa Econômica Federal e dos Correios.
No governo FHC, as políticas sociais eram tímidas e assistencialistas.
O Comunidade Solidária era uma iniciativa nanica comparada à
grandiosidade do Bolsa Família, que hoje distribui renda para mais de
40 milhões de pessoas. Graças a isso, de cada 100 brasileiros que
viviam na miséria, nos últimos 4 anos 19 passaram à classe média.
No governo Lula houve, sim, desvios éticos: o caso Waldomiro Diniz; o
“mensalão” e os “sanguessugas”; a quebra do sigilo bancário do
caseiro de Brasília; o dossiê contra Serra. Não há nenhuma prova de
que o presidente soubesse antecipadamente dessas operações
inescrupulosas. E ao virem a público, ele tratou de demitir os
envolvidos.
No governo FHC, dinheiro público foi usado para tentar socorrer bancos
privados: o Proer. O Banco Econômico recebeu R$ 9,6 bilhões.
Instalou-se uma CPI que, controlada pelo Planalto, justificou a
maracutaia e nunca investigou a Pasta Rosa que continha os nomes de 25
deputados federais subornados pelo Econômico.
Houve ainda os casos dos precatórios; da compra de votos para aprovar a
emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC; do socorro aos
bancos Marka e FonteCidam no valor de R$ 1,6 bilhão (os tucanos
impediram a instalação da CPI para investigar o caso); as falcatruas
na Sudam etc. Nada foi apurado, porque o Procurador-Geral da República,
Geraldo Brindeiro, conhecido como “engavetador-geral”, engavetou, até
maio de 2001, 242 processos contra o governo e arquivou outros 217,
livrando os suspeitos de qualquer investigação: 194 deputados
federais, 33 senadores, 11 ministros e ex-ministros, e o próprio
presidente da República.
O governo FHC tratou os movimentos populares como caso de polícia, e não
de política. Remeteu o Exército para reprimir o MST e os petroleiros
em greve. Lula jamais criminalizou movimentos sociais e, sob o seu
governo, a Polícia Federal levou à prisão gente graúda, dos donos de
uma grande cervejaria a juízes, e inclusive petistas envolvidos no caso
do dossiê anti-Serra.
O governo Lula reforçou a soberania do Brasil. Repudiou a Alca proposta
pelo governo Bush; condenou a invasão do Iraque; visitou a cada ano países
da África; abriu as portas de nossas universidades a negros e indígenas;
estendeu energia elétrica aos mais distantes rincões; manteve a inflação
sob controle; impediu a alta do dólar; reduziu os preços dos gêneros
de primeira necessidade; ampliou o poder aquisitivo dos mais pobres,
através do aumento do salário mínimo.
Lula ainda nos deve muito do que prometeu ao longo de suas campanhas
presidenciais, como a reforma agrária. Porém, o Brasil e a América
Latina serão melhores com ele do que sem ele. Se você está convencido
disso, trate de convencer também outros eleitores.
Vamos votar na vida – e “vida para todos” (João 10,10). Vamos
reeleger Lula presidente!
Frei Betto é frade dominicano e escritor,
autor de 53 livros, e assessor de movimentos sociais.
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