"Homens de preto"

 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

“Homens de preto” é o título da reportagem de Mauro Ventura e Elenice Ventura em edição do jornal O Globo, onde eles falam do livro “Elite da tropa”. Os autores André Batista, capitão PM, Rodrigo Pimentel, ex-oficial da PM e Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança (este último esteve recentemente em nossa cidade para falar do documentário “Meninos do trafico”, revelam que se trata de ficção que dialoga com o real. “No livro, todos os personagens relevantes da segurança pública aparecem de maneira reveladora” – diz Soares. – “O léxico, ou seja, os fatos isolados, as experiências, os gestos, é real. Mas a sintaxe, a combinação entre os fatos, os atos e os gestos, é ficcional. Isso para que não haja qualquer possibilidade de identificação de locais, personagens e momentos históricos.” “Os relatos que compõem o livro são ficcionais, no sentido de que todos os cenários, fatos e personagens forma alterados, recombinados e tiveram seus nomes trocados”. Os nomes são fictícios e alguns personagens resultam da fusão de pessoas, mas o livro é inspirado em histórias reais, que teriam acontecido no período de uma década.

O jornalista destaca que, “além de, pela primeira vez, dar voz aos policiais, o grande mérito do livro é mostrar como a polícia se rendeu à política.” “- A segurança pública foi aparelhada e se tornou parte da máquina política” – diz o antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos autores, ao lado do ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel e do capitão da PM André Batista. – “Freqüentemente , a indicação dos profissionais é política. Por que diabos um político quer ter uma delegacia? Para influir naquela região ou por interesses escusos: captar recursos para a campanha eleitoral. Essa politização é gravíssima e está caracterizando a segurança pública”. Pimentel também destaca o “loteamento de delegacias e batalhões”: “- Antigamente, o político indicava um amigo para o Ibama, para Furnas, de modo que ele lhe repassasse dinheiro.
Descobriram que a segurança pública pode cumprir exatamente a mesma missão, com dinheiro ilícito vindo de transporte alternativo, caça-níqueis, clínica de aborto, casa de massagem, camelôs.”

“Quando chegávamos para conversar sobre o livro, diziam: “você vai falar que a polícia é ruim, é corrupta. Tudo bem. Mas você vai falar que são os políticos que estão mandando nesta “m”?” Eu dizia: “Pode deixar que a gente vai falar”. “Tínhamos que deixar nítido o modo como a política estadual interfere na polícia” – conta Pimentel. Que diz ainda: “O Rio tem o direito de saber o que acontece com sua polícia. E com sua política de segurança pública. Merece ver o quanto ela é repetitiva e equivocada.”

Confesso que não fiquei surpreso com os relatos, ainda que parciais, da reportagem citando partes do livro, mas sim, escandalizado, indignado, agredido e até frustrado como cidadão.

Por outro lado a reportagem, ainda que não cite diretamente, nos dá algumas pistas sobre a lavagem de dinheiro público e o mais recente escândalo do governo do estado, revelada pelo mesmo jornal: “Conexão laranja, Estado repassou R$112 milhões para três doadores de Garotinho”.
E prossegue: “A Fundação Escola do Serviço Público (Fesp) repassou, sem licitação, de 2003 a 2006, R$112,5 milhões para três associações de cujas diretorias fazem parte sócios de três empresas doadoras da pré-campanha presidencial do ex-governador Anthony Garotinho”. Segundo
noticiado há empresas “doadoras” do Garotinhoduto, ligadas ao Projeto Delegacia Legal.

Aproveito para ajudar a repercutir estes fatos com o objetivo de trazer luz ao debate, reforçando a tese defendida por estudiosos, entre eles Luiz Eduardo Soares, sobre a ausência de um projeto de segurança pública por parte do governo do estado. Isso também reforça a minha posição contrária a instalação em Nova Friburgo de uma Casa de Custódia/Presídio.

Valendo-me mais uma vez dos relatos do livro, reafirmo a minha posição e a de tantos outros que amam esta cidade e não querem vê-la desvalorizada no seu perfil turístico. Queremos humanizar as condições dos nossos presos sem aceitar imposições do estado. Que a opinião da população seja
respeitada.



*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo
e-mail: claudiodamiao@pop.com.br