A Ponte da Saudade


 

 

*Cláudio Damião Santos Pereira

 

      

A Prefeitura demoliu a antiga Ponte da Saudade. A ação foi executada com o argumento de que ela estava em péssimo estado de conservação. O que explica, mas não justifica.

 

A ponte dava nome ao bairro, porta de entrada da cidade. Bairro este que cresceu e hoje abriga variado comércio, principalmente lojas de moda íntima, além de muitas residências.

 

Pode parecer que a demolição da Ponte da Saudade seja algo sem importância, mas não é. Significa pôr abaixo um marco da história de nossa cidade. Significa ausência de sensibilidade e preocupação com a historiografia de um monumento de quase 100 anos. Um século demolido a marretadas. Nada mais ficará para contar a história, senão algumas fotos antigas.

 

Pode-se argumentar que ela já não tinha serventia. Mas e aí? Era um marco da nossa história, como já disse. Mais um, que se perde para sempre.

 

Curioso como as autoridades não pensam em formas de preservação e de conservação. Só pensam na praticidade de uma aponte que sirva para o trânsito de carros e a circulação de pessoas. Fora isso, derruba-se o que não atende mais ao objetivo para o qual foi construído. Mas e a história? eu me pergunto. Como fica a nossa história? Que a Ponte ficasse lá, sem serventia prática, tudo bem. Qual seria o problema? Punha-se uma placa explicativa aos turistas, dizendo: trata-se de uma ponte centenária, cujo nome remonta aos tempos das despedidas daqueles que se iam da cidade após estar a rever parentes, dos filhos que iam para a capital, dos amigos que partiam e, por isso, passou a chamar-se “Ponte da Saudade”. Ou seja, um monumento de nossa história. Bastava restaurá-la aos moldes da época de sua construção.

 

Recentemente visitei no Porão da Arte uma belíssima exposição de fotografias antigas de Nova Friburgo. Pensei: meu Deus, quanta beleza! Ao mesmo tempo, invadiu-me uma certa tristeza, ao ver que muito do que mostravam as fotos já se perdeu. O que ainda existe corre o risco de ser destruído, por total falta de sensibilidade.

 

Não falo por saudosismo, pois não vivi naquela época, mas por entender que a cidade, para ser atração turística, precisa de uma consistente política de preservação de sua memória, de seu patrimônio arquitetônico.

 

Sabemos que é possível a arquitetura moderna conviver com as obras antigas, sem que uma agrida a outra. Basta haver interesse em preservar. A que haja políticas públicas neste sentido.

 

Vimos a lenta agonia do Solar da Madame Santana, até que este puísse, definitivamente. Vimos o casarão na Praça Getúlio Vargas cair para dar lugar a um Shopping. E o casarão na Avenida Alberto Braune, que foi derrubado para a construção de uma agência bancária. Uma importante parte da nossa história arquitetônica, da nossa memória, que se foi, e que ficará apenas =o registro fotográfico.

 

Muitas outras obras importantes já se perderam. No entanto, várias outras estão aí, sem receber a devida atenção. Uma cidade como a nossa, que tem vocação para o turismo tem a obrigação de preservar o seu patrimônio histórico e cultural.

Hoje se demoliu a Ponta da Saudade. Amanhã, o que será demolido?

 

 

*Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo

E-mail: claudiodamiao@pop.com.br