ESSAS BELAS MULHERES E SEUS CORPOS MILIONÁRIOS


 

*Maria Clara Lucchetti Bingemer 

 

      

Problema  número um de saúde pública do século XXI, o tráfico de  drogas é também o negócio que mais movimenta dinheiro em todo o mundo.  Não se consegue calcular quantos infinitos milhões de dólares  circulam de um lado a outro do planeta através do pó mágico da  cocaína, da erva da maconha, das pílulas de ecstasy ou de outras  substâncias químicas. Estas prometem aos deprimidos e entediados seres  humanos o paraíso das sensações artificiais de bem-estar, euforia e  prazer. Portanto, não têm preço.

Ultimamente, no afã de transportar de um lado para outro as  inebriantes drogas, o tráfico descobriu novo veículo: o corpo das  mulheres.  Não é de hoje que mulheres de todas as idades, de meninas  
quase crianças a senhoras respeitáveis, servem de ?mula? para o  tráfico.  Ou seja, aceitam levar na bagagem um determinado contingente  de droga em troca de remuneração (alta) a combinar.

Agora, porém, parece que a bagagem não é mais meio de transporte tão  seguro.  A polícia anda alerta, os cachorros têm bom faro e a droga  vai sendo descoberta mais frequentemente do que seria de desejar.  As  ?mulas? acabam presas e o prejuízo para o traficante é enorme.  Buscando um transporte mais imponderável e seguro, é agora nos  próprios corpos femininos que a droga se aloja para chegar sã e salva  a seu destino.

Nas mais de dez mil mulheres que foram identificadas realizando esse  tipo de ilegalidade na enorme via de mão dupla que se formou entre a  América Latina e o hemisfério norte, quase 80% guardam o mesmo perfil:  são jovens, bonitas e de classe média. Para carregarem seu precioso  fardo, as belas moças aceitam fazer incisões cirúrgicas no próprio   corpo, escondendo sob a pele mercadorias ilegais como cocaína e   ecstasy. Pelo serviço, de acordo com a quantidade transportada e o  tipo da mercadoria, recebem gordas quantias: nunca menos de US$ 1 mil  
podendo mesmo chegar a US$ 15 mil.

Para carregar a cocaína elas entregam ao bisturi as coxas e os seios.  Ali, naquelas partes do corpo feminino criadas e destinadas ao amor,  ao carinho, à nutrição dos filhos, alojam-se quantidades gigantes de  pasta de coca, que comprada a U$ 2000,00 o quilo em países  latino-americanos podem chegar a ser revendidas na Europa por U$ 100.000.  As cirurgias são realizadas em clínicas clandestinas bem  escondidas em algum ponto de países latino-americanos. Dali as moças  partem em direção à perigosa viagem que pode ser sem volta devido à  carga milionária que levam nas entranhas.  Já as pílulas de ecstasy se  acomodam melhor no aparelho digestivo, seja no estômago ou no  intestino, provocando graves distúrbios que afetam a saúde da mulher  
para sempre ou a levam inclusive à morte.

A gravidade do fato espanta e provoca perguntas que não querem calar.  Como mulheres jovens e bonitas são seduzidas pelos traficantes? Por  que uma moça jovem e bela, que teria tudo para ter uma vida intensa e  realizada procura tal descaminho deixando retalhar o próprio corpo  
para transportar droga. A resposta, veiculada recentemente por  importante revista brasileira, torna ainda mais triste o fato já de si  tão tenebroso.  O tráfico em geral consegue aliciar as mulheres que  
têm algum ponto vulnerável ao nível dos afetos, ou estão passando por  algum momento difícil em suas vidas.

Os aliciadores do tráfico ganham por cada mulher recrutada, o que os  estimula a investir na busca da quantidade cada vez maior para gerar  lucros expressivos. Aonde vão eles buscar suas vítimas?  Em shopping  centers, filas de emprego e até mesmo portas de hospitais. Nesses  lugares, seu olhar cúpido poderá identificar mulheres bonitas que  sonhem conhecer o exterior, mas não possuam recursos suficientes para  tal. Ou então mães solteiras com filhos doentes sem recursos para  
tratá-los. Essas parecem as mulheres mais fáceis de serem convencidas.  A angústia com a vida dos filhos as podem levar facilmente a  procurar saídas desesperadas como transformar o próprio corpo em lugar  de carga para a droga sem pensar nas conseqüências.

Muitas igualmente estavam desempregadas ou sem atividade regular  remunerada.  O desespero de não ter como garantir a sobrevivência as  faz dizerem sim à proposta do traficante.   O ingrediente da beleza  corre por conta de poder mais facilmente captar a benevolência da  polícia ou de outras instancias que pudessem impedir a conclusão da  ilegalidade.  Mulheres bonitas têm mais chance de burlar a fiscalização.

Dignas de toda compaixão são essas belas ?mulas? que vendem seus  corpos e sua dignidade em um tipo de prostituição mais vil do que  qualquer outro.  Mas digna de toda indignação ética é a situação de  uma humanidade que leva mulheres criadas por Deus para o amor e a  maternidade a buscar um salto qualitativo na vida através de desvio  tão profundo e equivocado!


* Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do  
Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio,
é autora de "A  Igreja e os intelectuais: contribuição para
a construção da sociedade?  
(EDUSC), entre outros livros.
(wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape )