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A ARTE DE LEGISLAR (E ENGORDAR) PARA NÃO MUDAR |
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por
Frei Betto Meu tio G. é imensamente gordo. Claro,
isso o incomoda. É PhD em dietas. Conhece todas, já experimentou uma
infinidade: a da lua, da sopa, do sangue, do corte de carboidratos,
glúten e doces, e é viciado em medicamentos inibidores do apetite. Nada
adianta. Nem a cirurgia de redução do estômago. Se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
aceitar que as imagens das CPIs se incluem entre ³cenas externas², a
campanha deste ano não poderá exibi-las. Isso se o TSE contradizer-se e,
ao contrário do que decidiu quanto à emenda da verticalização,
aprovada mas impossibilitada de vigorar nessas eleições, permitir que,
neste ano, haja veto às gravações da CPI. Em princípio, qualquer
modificação de legislação eleitoral só pode entrar em vigor um ano
após a sua aprovação. Mas este não é o país dos
casuísmos? As regras aprovadas pelo Senado
proíbem distribuição de brindes (camisetas, bonés, chaveiros) e
presença de artistas nos comícios. E vender brindes para fazer caixa, é
permitido? Mas se calam quanto ao caixa dois e à transparência dos
recursos de campanha. Ou seja, cortam-se doces e glúten, desde que a mesa
permaneça fartaŠ O mais curioso é que se pretende punir apenas o candidato beneficiado por ³recursos não-contabilizados.² O tesoureiro pode bancar o useiro e vezeiro nas maracutaias, e os doadores de recursos escusos também ficam livres de investigação e punição, o que a meu ver representa uma ofensa a todos nós que prestamos contas à Receita Federal e incluímos as finanças nos atos a serem regidos por princípios éticos. Meu tio pode comer de tudo, desde que não esteja contido na prescrição médicaŠ Nada disso haverá de baratear campanhas eleitorais. E tudo isso ajudará a fomentar a central de boatos incrementada pelos modernos avanços tecnológicos, como a internet. Cabos eleitorais de um e outro candidato cuidarão de divulgar supostas pesquisas confundindo ainda mais os eleitores. Como meu tio ficou confuso depois que se propalou aos quatro ventos que calorias não engordamŠ Diante dessa Babel na legislação eleitoral, só resta ao eleitor conferir a vida pregressa de seus candidatos e certificar-se se são ou não coerentes com o que defendem e suficientemente corajosos para não fazer na vida pública o que fazem na privadaŠ Pelo visto, o Congresso não quer fazer reforma política. Nada de cortar na carne. Até porque proteínas não engordamŠ mas os subterrâneos de campanha dispõem de bastante gordura para engravidar urnas e, qual Fênix, fazer renascer das cinzas candidatos e políticos que gostaríamos de ver pelas costas. Que tal uma boa renovação do Congresso nas eleições de outubro? Depende apenas do nosso voto.
*Frei Betto é
escritor, "Em
cumprimento da Lei de Direitos Autorais |