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O crime de se fechar uma escola |
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*Cláudio Damião Santos Pereira
Quanta coisa armazenada em minha lembrança. Quanta coisa, meu Deus! E bastou uma notícia, um fato recente, para puxar o fio do novelo. As lembranças foram voltando, instantaneamente, feito um filme. Levei um susto ao me deparar com o tempo que passou. Na veloz corrida pela sobrevivência, não me tinha dado conta de quantos anos me separam de algumas lembranças e da importância daqueles dias na minha vida. Refiro-me a um período muito especial da minha infância: o período escolar. Saía de casa rumo ao Grupo Escolar. Cabelo engomado, camisa branca com divisas no ombro. No percurso passava na casa de um amigo e fazíamos o caminho juntos. Ele era paraplégico, vítima de poliomielite. Eu carregava a sua pasta com os livros e cadernos. Ele, de muletas, comprava “coquinhos” (amendoins cobertos com chocolate) na venda do Sr. Luiz, e comíamos pelo caminho, no trajeto das nossas casas, na rua Piauí, até a rua São Paulo, com destino ao Grupo Escolar Professor Constantino Domingos Ferreira. Lembro-me dos amigos que fui conquistando... Edmilson, Marcos, Jailton, Adalberto, Tião... O perfilar-se para cantar o Hino Nacional e hastear a bandeira no pátio... - Façam filas! Bradava Dona Ruth, a diretora. No recreio, o leite com sal em canecas de alumínio, ou o mingau de aveia, cozido num panelão pela Dona Sirene, a merendeira, cujos filhos também estudavam ali. As histórias contadas pelo professor Délio, que silenciavam e distraiam a turma numa eventual falta de algum professor... os bolinhos de chuva que só ele sabia fazer... (Dedicado Professor Délio, avesso a homenagens, um símbolo na educação em Nova Friburgo e ainda hoje nas salas de aula repassando conhecimentos) As peladas no pátio empoeirado e o corre-corre de pique esconde... O Grupo Escolar Professor Constantino Domingos Ferreira era uma escola pobre como são as escolas públicas até os dias de hoje. Não possuía muros e apenas 4 salas de aula com as janelas quebradas abrigavam as crianças das redondezas. Goteiras nos dias de chuva obrigavam a uma reordenação das carteiras. Mas, apesar de tudo, éramos felizes, acarinhados pelas professoras. E eu as amava. Ah, como as amava! Eu e os demais meninos. E fazíamos fila para beijá-las à saída, todos os dias, num ritual platônico. Lembro-me de todas elas: Maria José, Sônia, Suely, Maria Elenice... e tantas mais que cuidavam das outras turmas. Não sabíamos que éramos pobres alunos de uma escola pública. Isso não tinha a menor importância. Estávamos agasalhados sob um manto de amor e carinho. Era o que contava. Passados tantos anos, voltam-me estes fatos à lembrança, após ler a triste notícia de que o governo do estado quer fechar a nossa amada escola, após 40 anos de funcionamento e atendendo, como atendeu a mim, a meus irmãos, meus amigos e a tantas outras crianças do bairro e das imediações. Penso que, só por muita frieza e distanciamento da realidade, alguém poderia cometer tamanho crime. Só por não saber o que significa aquela escola na vida dos pais e alunos do Bairro Bela Vista, um governo poderia fechá-la. Só mesmo a total falta de sensibilidade social para pôr fim a uma escola, transferindo os alunos para uma outra, distante de suas casas e colocá-los sob risco de atropelamento em vias de alta velocidade. Escola Estadual Professor Constantino Domingos Ferreira, uma escola que resiste e sobrevive a 40 anos de abandono e falta de atenção. Agora, definitivamente, querem fechá-la. Junto a minha voz à dos pais, alunos e professores da Escola Estadual Constantino Domingos Ferreira, num apelo veemente ao governo do estado contra o seu fechamento. Que nossa voz, um clamor emocionado, um pedido de socorro, consiga chegar aos ouvidos moucos de nossas insensíveis autoridades. Para o bem de nossas crianças. *Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo E-mail: claudiodamiao@pop.com.br Publicado
no jornal A Voz da Serra do dia 26.04.06 |