DEFICIENTES: VÍTIMAS DA  DEFICIÊNCIA OFICIAL

 por Frei Betto

O  poder público não tem uma política para as 27 milhões de pessoas portadoras de  deficiência no país. Na América Latina, são 50 milhões. No mundo, mais de 500  milhões, segundo a Organização Mundial da Saúde. O programa “Fantástico”  mostrou, no mês passado, a excessiva burocracia para que uma dessas pessoas  possa adquirir um carro com os descontos tributários previstos em lei.  

  Tudo é problemático para quem já tem a vida  dificultada pela limitação física: calçadas irregulares e acidentadas, falta  de rampas de acesso a locais públicos, ausência de equipamentos adequados.  Como é possível um transporte público sem condições de abrigar um passageiro  em cadeira de rodas? A barreira mais difícil, porém, é o nosso preconceito, o  nosso descaso, a nossa incapacidade de incluir portadores de deficiência no  mercado de trabalho, na escola, nos centros de cultura, lazer e  esporte.

  Durante os dois anos em que trabalhei  no governo federal, empenhei-me, em vão, para que se criasse uma Secretaria  Nacional destinada a esse público, à semelhança das que existem para Mulheres,  Igualdade Racial, Direitos Humanos e Juventude. É o que propõe a ONU: a  criação de um organismo vinculado à mais alta instância de deliberação  governamental.  Encontrei obstáculos até na doação de cadeiras de roda  aos beneficiários do Fome Zero por
generosidade dos  mórmons.

  Outrora as pessoas com lesões  acentuadas eram chamados de aleijadas; depois, deficientes; hoje, pessoas  portadoras de deficiências. Advogo nova terminologia: pessoas portadoras de  direitos especiais (Pode). Todos temos direitos universais, inclusive elas.  Porém, por razões óbvias, merecem também direitos especiais, como  estacionamentos, banheiros e rampas exclusivos, além de atendimento  preferencial em locais públicos.

  É preciso  resgatar essa parcela da população da cidadania de segunda classe. Esta a  razão pela qual a Igreja Católica dedica-lhes a Campanha da Fraternidade 2006,  inaugurada nesta Quarta-Feira de Cinzas. O lema é a palavra de Jesus em Marcos  3,3: “Levanta-te, vem para o meio”. Os evangelhos estão repletos de exemplos  de como Jesus tratava os portadores de
deficiência, extirpando a idéia de  que eram vítimas de castigo divino, como propalava a ideologia religiosa  dominante na Palestina do século I.

  À  deficiência do poder público somam-se preconceitos e discriminações reinantes  em nossa sociedade. A exclusão é um fenômeno sociológico. Uma criança surda,  filha de pais surdos, não se sentirá excluída na família. Mas poderá sentir na  sociedade se esta não está preparada para tratar a pessoa portadora de  limitações físicas, não como deficiente, mas como diferente,
sem fazer da  diferença divergência ou excludência.

  É muito  importante que as escolas se empenhem na pedagogia capaz de evitar  preconceitos e  estimulem em seus alunos a inserção, entre eles,  depessoas com deficiências, e a atitude solidária sem estranhamento ou  paternalismo.

  Sobretudo, é preciso exercer  pressão sobre o poder público para que esse contingente de cidadãos tenha os  seus direitos conquistados e respeitados. Organizados em associações, devem  eles, por sua vez, aumentar seu poder de mobilização, de denúncia, de elaborar  e propor políticas públicas. Por que não processar a prefeitura pela calçada  irregular que põe em risco quem anda em cadeira de rodas ou com bengala? Por  que não denunciar o estabelecimento comercial sem rampa? Foi graças à  mobilização do Movimento dos Direitos das Pessoas com Deficiência que, em  1980, a Justiça obrigou o metrô de São Paulo a
oferecer um sistema de  acesso aos vagões.
 
  O material da  Campanha da Fraternidade (www.cnbb.org.br), disponível em paróquias e  livrarias católicas, com certeza nos ajudará a abraçar mais decididamente esta  causa de cidadania.

 

Frei Betto é escritor, autor de "Gosto de Uva" 
(Garamond), entre outros livros.


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