O SILÊNCIO DE DEUS

 por Frei Betto

Em visita a Auschwitz, o papa Bento XVI fez uma  prece  que surpreendeu a muitos: “Onde estava Deus naqueles dias? Por  que ficou em  silêncio? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse  triunfo do mal?”  

Esta foi a oração de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu   Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27, 46), fazendo eco ao  Salmo  22: “Meu Deus, eu grito de dia e não me respondes; de noite, e  nunca tenho  descanso.”

Nem sempre a nossa oração é de súplica, gratidão ou   louvor. Há momentos em que o silêncio de Deus nos incomoda, sobretudo  diante  do mal praticado e da impunidade. Talvez Ele esteja sugerindo,  com esse  silêncio, caber a nós reparar a injustiça e evitar o mal.  Deus é pai mas não  paternalista. “Onde estavam vocês, homens e  mulheres de bem, naqueles dias?  Por que se  omitiram?”

A religião não é para ser crida, é para ser vivida.   Mais vale fazer do que crer. Amar ao próximo do que prestar culto a  Deus. Mas  quem, hoje, prescinde de religião? Como celebrar momentos  fortes da vida –  nascimento, casamento, morte – sem recorrer a ritos e  símbolos religiosos?  

Muitos já não buscam a libertação social e política,   devido ao ocaso das ideologias progressistas, embora sonhem com um  mundo  melhor. Agora a libertação cede lugar à salvação. A utopia –  situada no futuro  da história – é suplantada pela experiência imediata  do sagrado.  

As instituições tópicas da modernidade estão em  crise,  como a família monogâmica, a escola e a igreja. Nunca  Protágoras esteve tão em  moda como nesse primórdio da pós-modernidade.  Também quanto à religião os  fiéis querem ser a medida de todas as  coisas. Rejeitam os canais  institucionais de mediação com o divino.  Olham desconfiados para instituições  aferradas ao equívoco histórico  de que sempre coincidem autoridade e  verdade.

Daí o êxodo de fiéis das igrejas históricas às   variadas manifestações esotéricas. Não estão à procura de doutrina,  mas de  alívio e soluções a seus problemas existenciais. Não buscam  mandamentos, e sim  consolos. Não querem o perdão, mas explicação para  suas angústias e  dificuldades. À promessa de salvação pós-morte  preferem o guru capaz de  premonição frente ao futuro imediato. Ficarei  curado da doença? Meu filho  largará as drogas? O amado retornará aos  meus braços? Há videntes que  garantem, em seus anúncios, a volta em  três dias do amor perdido ou a  devolução do dinheiro da  consulta...

Nas grandes cidades há muita insegurança. O ritmo da   vida se acelerou e não bastam pão e pouso para ser feliz. O nível de  exigência  inclui riqueza, fama e beleza (sobretudo magreza). O ser  robótico esculpido  pela mídia acentua a baixa auto-estima. Como posso  me sentir feliz se tenho  dívidas, sou anônimo, desprovido de beleza  física e não consigo me conter  diante de um caldeirão de gorduras  saturadas e uma travessa de doces? Como me  sentir bem se estou  ameaçado pelo desemprego? E se a política não me dá  respostas e as  ideologias se calam, onde buscar refúgio senão no esoterismo   religioso? Como resistir ao pastor que me promete prosperidade em  troca de uma  vida menos desregrada e o dízimo pago em dia? Como não se  sentir atraído pelo  padre que me insere entre os eleitos do Espírito  Santo e me faz falar em  línguas estranhas?

As igrejas históricas se dividem entre as que ainda   não se urbanizaram e insistem nos mesmos arcaicos métodos paroquiais,  sem  recursos para evangelizar a juventude, os setores profissionais,  os movimentos  sociais, e aquelas que, atualizadas pela mídia  televisiva, “privatizam” a fé,  reduzida a um meio de consolo pessoal e  identificação do fiel com a sua  igreja. Toda a dimensão social  encontrada no Evangelho – o compromisso de  Jesus com os mais pobres, a  crítica aos opressores e vendilhões do Templo, o  amor ao próximo que  reconhece nos famintos a própria face do Cristo – é  ignorada. Assim, a  religião exerce, de um lado, o papel de legitimadora da  desordem  vigente na sociedade e, de outro, induz ao fundamentalismo que   acredita na partidarização política da igreja como única forma de  salvar a  sociedade...

Evangelizar, hoje, é resgatar os métodos adotados  por  Jesus: antes de proferir o discurso moralista, oferecer o absoluto  de Deus,  como fez ele à samaritana; antes de exigir adesão à doutrina,  propor a opção  pelos pobres, como disse ao homem rico; antes de  realçar a sacralidade das  instituições religiosas, acentuar o ser  humano, em especial o faminto, o  enfermo e o oprimido, como templos  vivos de Deus. E anunciar o Deus do amor e  do perdão, e não do juízo e  da condenação; o Deus da alegria, não da tristeza;  Deus como pão da  vida, e não cruz a ser carregada neste vale de   lágrimas...

Jung demonstrou como Jesus está presente no   inconsciente coletivo do Ocidente. O que explica o sucesso do  Código Da  Vinci que, supostamente, esclarece a “história da  vida privada” de Jesus.  Essa tendência à privatização de todos os  aspectos da vida, comprovada pelo  êxito de publicações que  aparentemente fazem o leitor penetrar na intimidade  de celebridades, é  uma das características da filosofia neoliberal que  respiramos em  tempos de unipolaridade do capitalismo. Essa voyeurismo  exacerbado  neutraliza nosso potencial de transformar a sociedade e resgatar a   nossa auto-estima como seres ontologicamente políticos, como observou   Aristóteles.

Diante da tanta injustiça, não é o silêncio de Deus   que deveria nos incomodar, e sim a nossa desmotivação para combatê-la  e  construir o “outro mundo possível”.


Frei Betto é autor de 
“Entre todos os homens”  (Ática),  
biografia de Jesus, entre outros livros.  


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